Observacast ep#01- Ausência de políticas públicas põe em risco saúde de pessoas em situação de pobreza menstrual

Neste primeiro episódio do Observacast, vamos discutir as políticas públicas para o enfrentamento da pobreza menstrual. Para conversar sobre este tema, recebemos Anna Cunha, Oficial para Saúde Sexual e Reprodutiva do Fundo de Populações das Nações Unidas da ONU, e Soraya Barreto, professora do Programa de Pós-graduação em Direitos Humanos da Universidade Federal de Pernambuco. Elas debatem os impactos causados pela ausência de políticas públicas na saúde das pessoas em situação de pobreza menstrual. O podcast também conta com a participação de Alice Gonçalves, fundadora da organização Absorvente das Manas, e da estudante do ensino fundamental de uma escola municipal do Recife, Cecilia Lima. A apresentação é de Caroline Cardilane, produção de Ana Carolina Guerra e Lara Felix, edição de Thayla Kerolyn.
Confira!

PESQUISAS DA UNFPA E UNICEF APONTAM DESCASO COM A POBREZA MENSTRUAL

A pobreza menstrual é um fenômeno complexo, multidimensional e transdisciplinar caracterizado principalmente pelos seguintes pilares: falta de acesso a produtos adequados para o cuidado da higiene menstrual tais como absorventes descartáveis, absorventes de tecido reutilizáveis, coletores menstruais descartáveis ou reutilizáveis, calcinhas menstruais, etc., além de papel higiênico e sabonete, entre outros; questões estruturais como a ausência de banheiros seguros e em bom estado de conservação, saneamento básico (água encanada e esgotamento sanitário), coleta de lixo; falta de acesso a medicamentos para administrar problemas menstruais e/ ou carência de serviços médicos; insuficiência ou incorreção nas informações sobre a saúde menstrual e autoconhecimento sobre o corpo e os ciclos menstruais; tabus e preconceitos sobre a menstruação que resultam na segregação de pessoas que menstruam de diversas áreas da vida social; questões econômicas como, por exemplo, a tributação sobre os produtos menstruais e a mercantilização dos tabus sobre a menstruação com a finalidade de vender produtos desnecessários e que podem fazer mal à saúde; efeitos deletérios da pobreza menstrual sobre a vida econômica e desenvolvimento pleno dos potenciais das pessoa.

Menstruar nas escolas

De acordo com um estudo realizado pelo UNICEF e divulgado em maio de 2021,  cerca de 321 mil alunas, 3,0% do total de meninas brasileiras em formação educacional, estudam em escolas que não possuem banheiro em condições de uso.

Destas, 121 mil meninas estão no Nordeste, ou seja, 37,8% do total de meninas que estudam em escolas sem banheiro.

Comparando a situação entre as escolas localizadas no Norte do país, o percentual de meninas sem acesso ao banheiro chega a quase 8,4%.

Nas escolas rurais do Brasil, cerca de 6,4% das meninas estudam em unidades educacionais sem banheiros em condições de uso.

Quanto à esfera administrativa, a pesquisa apontou que as escolas públicas estaduais têm 249 mil meninas sem acesso aos banheiros, o que representa 77,6% do total das unidades de ensino.

440 mil meninas, 4,1% do total, estudam em escolas que não possuem separação de banheiros por sexo.

Estima-se que no Brasil 1,24 milhão de meninas não tenham papel higiênico disponível nos banheiros das escolas em que estudam; dentre essas meninas, 66,1% são pretas/pardas.

Existe o risco relativo de uma menina negra estudar em uma escola que não disponibilize papel higiênico nos banheiros é 51% maior em comparação às meninas brancas.

Quase 652 mil meninas não possuem acesso a pias ou lavatórios em condições de uso em suas escolas.