por: Lucas Holanda, Natália Aguiar e Raíssa Moura
“A primeira coisa que eu senti, enquanto mulher negra, foi a questão da insegurança, porque eu sou preta, minha família é preta, meu companheiro é preto, minha namorada é preta, meu pai… todo mundo é preto. E nós sempre somos as pessoas que sofremos mais quando estouram os problemas sociais” disse Joaninha Dias, ativista pela Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e professora, que vive na pele os problemas raciais no país.
De acordo com um estudo feito pelo Boston Consulting Group, o número de pessoas negras vítimas da COVID-19 é seis vezes maior do que o de brancos. Outro dado que chama atenção, originado de um estudo feito pelo Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, da PUC-Rio de Janeiro, é de que pessoas sem escolaridade morreram três vezes mais do que aquelas que têm nível superior.
Para completar, fazendo um paralelo de raça com escolaridade aqui no Brasil, os dados são ainda mais alarmantes e mostram uma dura realidade: negros e pardos sem escolaridade tiveram um índice de taxa de morte de 80,35%, enquanto 19,65% de pessoas brancas com nível superior foram vítimas fatais da COVID-19, de acordo com os dados da universidade.
“Nem sempre foi possível deixarmos de ir trabalhar”
Mulheres negras sempre sofreram com a desigualdade racial no Brasil e, com a chegada do novo vírus, essa disparidade se intensificou. Piedade Marques, professora da rede básica aposentada, vê o mito da democracia racial no Brasil como realmente uma mentira e que, mesmo sentindo o racismo na pele, ainda é difícil afrontar as pessoas. “Minha experiência como mulher negra num país como o Brasil, racista e desigual, tem sido de uma mulher que se descobre a cada dia, das experiências, do não dito mas do sentido. De um racismo velado, escondido nas piadas, na boa vontade, na fala do ‘eu não quis dizer isso’, ‘você não entendeu bem’, mas que vem recheado de muita maldade, muita perversidade. Esse é o racismo estrutural que nós sentimos e não temos condição inicialmente de confrontar, porque todo mundo é legal demais”, conta.
A professora aposentada mostra que o racismo continua afrontando e deixando as mulheres negras cada vez mais em situação de vulnerabilidade. “Seja a mulher negra no movimento social negro e nas organizações feministas, seja a mulher negra dona de casa que toca sua vida no dia a dia, nós estamos nessas duas realidades e elas terminam sendo perversas pelo medo de contrair a doença, porque somos maioria. Nem sempre foi possível durante essa pandemia toda nós deixarmos de ir trabalhar”, revela.
Estar em casa, infelizmente, não foi possível para 41% das mulheres entrevistadas pela SOF (Sempreviva Organização Feminista), sendo 44% desse número de mulheres negras. Danielle Santana, mulher negra que viu as conquistas de direitos serem arrancadas com a troca de governo, estudante de Jornalismo e estagiária do Jornal do Commercio, explica que, mesmo que o isolamento tenha sido imposto para toda a população, os direitos não foram sustentados.
Com a necessidade de apoio da população para a luta negra, Piedade Marques procura explicar a importância da comunicação na briga a favor das mulheres negras, mostrando a realidade desse grupo, a fim de disseminar fatos. Ouça o que Piedade fala sobre a aliança entre comunicação e movimentos da causa negra.
A importância da comunicação também é exposta por Danielle que exemplifica o poder do detalhamento de dados quando abordado temas delicados mas que já se tornaram “comuns” no dia a dia.
“O receio de que seríamos os primeiros a sofrer”
Existe uma teoria que diz que, por causa da vinda forçada durante o período colonial, na qual os negros viajavam durante dias em um ambiente insalubre e sem grandes condições de sobrevivência, a população negra é, especialmente, afetada até hoje com como doenças como hipertensão. Por esse agravante, Joaninha Dias, professora negra da rede pública de ensino e pedagoga pela UFPE, reflete que as pessoas pretas sempre foram os que mais sofreram com problemas sociais e que, com a pandemia no estado, ela temia que o novo problema tivesse o mesmo desfecho. “O receio de que nós seríamos os primeiros a sofrer as consequências da pandemia foi o primeiro choque, a primeira dor, de ser do grupo de risco porque somos hipertensos e isso já atingiu a gente com força e todo o contexto do acesso que tínhamos a hospitais, a cuidados se fossemos contaminados com corona”, explica.
Assim como a hipertensão, a diabetes afeta mais os negros, tendo as mulheres negras 50% mais de chance de ter a doença que condiz com o excesso de açúcar no sangue e é um dos fatores para se considerar de grupo de risco. Uma tia da pedagoga, que passou a viver com o pai na pandemia, perdeu uma parte do pé durante esse período por causa da enfermidade. Escute o que a tia de Joana teve que enfrentar durante o período em que os hospitais não funcionavam plenamente.
Em pesquisa divulgada em setembro pelo IBGE, no ano de 2019, 70% dos brasileiros utilizavam o Sistema Único de Saúde (SUS) como meio de atendimento médico. Na pandemia, por causa do grande volume de atendimento por causa do novo vírus, foi criado um aplicativo para “atendimento à distância”. O aplicativo foi bastante divulgado nas mídias digitais com intuito de evitar aglomerações nos serviços médicos, especialmente o público. Piedade Marques explica porque o SUS deve ser defendido pela população.
“Me colocando em risco o tempo todo e eles também”
Joana, mulher negra e hipertensa, convive diariamente com a falta de política pública, principalmente durante a pandemia, em relação aos transportes públicos. Ela conta que usa transporte público para ir à casa do pai para cuidar dele, sofre com a política adotada para esses meios durante a pandemia e reclama do funcionamento de ônibus e metrôs. “Poucos veículos funcionando, trajetos longos fazendo em ambiente totalmente lotado, distanciamento nunca existiu nem no começo da pandemia, nem no meio, nem agora. É muito complicado você dizer que tem que ter distanciamento, que todo mundo tem que estar de máscara e você não tem nem lugar para se segurar no metrô”, responde. Em abril de 2020, houve a diminuição de 47% da frota dos ônibus no Grande Recife. “Vivo nesse dilema de que eu preciso ver e cuidar dos meus parentes, mas eu estou andando de um lado para o outro em um transporte público que não me protege em nada, que não me dá segurança em nada, pagando uma tarifa alta e me colocando em risco o tempo todo e colocando eles também”, conclui.
Joana conta um pouco da rotina de transporte público e os problemas que ela tem enfrentado durante a pandemia
Um grande fator que ajuda a comunidade negra são os movimentos sociais que têm ganhado participantes da sociedade em geral em prol da igualdade racial. Para Piedade, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, a população precisa participar dos movimentos e não disseminar notícias falsas. “Ampliar as vozes do que tem sido construído pelas mulheres negras nesse país, nesse lugar que se coloca de invisibilidade mas que, com o trabalho constante, de formiguinha, de construção coletiva, cada pessoa pode ajudar se envolvendo, se inteirando, participando de ações de solidariedade, de fortalecimento e ampliando as vozes dessas mulheres. Acredito que só na organização e no coletivo nós conseguimos construir e transformar realidade”, reafirma.
“Acessibilidade não acessível”
A necessidade de uma renda emergencial para os trabalhadores informais que não tinham como sobreviver durante o período pandêmico é um tópico a ser debatido. Inicialmente, com projeto para ser de R$200 mensais, o auxílio emergencial foi sancionado com o valor de R$600. Danielle Santana afirma que é uma “acessibilidade não acessível”, pelos meios necessários para que o valor seja adquirido pelos que necessitam. Além disso, não faz sentido, para ela, o valor ser pago em uma demora tão grande, sendo assim, conclui que o que foi feito não é suficiente, já que pessoas ainda se arriscaram, tanto em trabalhos quanto em aglomerações para sacar o dinheiro na tentativa de sobreviver.
O Estado é falho
Esses relatos dilacerantes escancaram uma dura realidade: o Estado brasileiro é falho e não consegue chegar para todos. Não oferece direitos básicos para boa parte da população, que acaba precisando se virar em meio a um cenário de desigualdade social e de preconceito.
“A pandemia (do novo coronavírus) aprofundou desigualdades que a população negra já vive no Brasil desde sempre”, explica Mônica Oliveira, formada em comunicação social pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) e coordenadora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco. Um relato de quem vive essa dura realidade diariamente.
Para Mônica Oliveira, a pandemia do novo coronavírus comprovou um fato que sempre esteve evidente para todo mundo: o Brasil é um país racista e desigual, que coloca as pessoas negras em completa condição de vulnerabilidade social. “Essas desigualdades já existiam antes da pandemia e elas se agudizaram no período da pandemia. E, as mulheres negras, por serem o segmento que está sempre nas condições mais desvantajosas, que ocupam os lugares dos piores indicadores socioeconômicos, são as mais prejudicadas”, afirmou Mônica, que completa destacando que essa realidade desigual não deve mudar no “pós pandemia”.
“Então é importante que a gente afirme isso: existiam desigualdades, mas elas pioraram, se aprofundaram no período da pandemia, e agora no ‘pós pandemia’ essas desigualdades vão permanecer e as mulheres negras vão estar em piores condições do que estavam antes do coronavírus”.
Diante deste cenário de muito dificuldade, os movimentos sociais surgem como uma forma de amparo para quem tanto precisa. Além de Mônica, outra mulher que está neste meio auxiliando aquelas que estão necessitadas é Itanacy Ramos, integrante da equipe da Casa da Mulher do Nordeste e diretora do programa “Mulher, Trabalho e Vida Urbana”. Na visão dela, a sociedade civil vem sendo fundamental para ajudar as mulheres durante este período de pandemia.
“A organização da sociedade civil teve um papel fundamental no sentido de garantir que chegasse as mulheres negras e a população periférica: alimento, proteção, máscaras, produtos de higiene, mobilizou redes, mobilizou a sociedade e vem fazendo isso até hoje, cobrindo um buraco, cobrindo uma ausência do estado brasileiro”, afirmou a integrante da Casa da Mulher do Nordeste.
Além de todas as dificuldades citadas por Joana e outras vítimas, as mulheres e a população brasileira precisaram enfrentar outro problema: a burocracia do auxílio emergencial. Para Mônica Oliveira, a demora na documentação fez com que muitas pessoas que necessitavam do benefício acabassem ficando sem. Além disso, expôs outra dura realidade: a falta de documentos de quem mora em locais mais precários e sem acesso à informação, como periferias e zona rural.
Se o Estado brasileiro já é falho desde os primórdios, ele ficou ainda pior sob o governo de Jair Bolsonaro, que é uma pessoa que sempre fez questão de minimizar a desigualdade social no país, como por exemplo quando afirmou que ‘passar fome no Brasil é uma grande mentira’. Além disso, ele também faz de tudo para descredibilizar os movimentos sociais, inclusive chamando esses grupos de terroristas. Diante deste cenário, Itanacy acredita que é hora de uma solidariedade nacional, em busca de diminuir os problemas que as classes mais vulneráveis acabam enfrentando.
Os discursos de Itanacy e Mônica são reforçados por Bernadete Perez, médica sanitarista e integrante da Rede Sol, um dos movimentos sociais de Pernambuco. Para ela, as principais carências de políticas públicas para a população negra estão nas vulnerabilidades de acesso, de informação, de autocuidado… Enfim, de viver sem os direitos que deveriam ser aplicados para esse público, que foi ainda mais prejudicado durante a pandemia.
Sobre o futuro, Bernadete, assim como suas companheiras de luta, que o trabalho de conscientização precisa começar desde cedo, no que a militância chama de base. “Para amenizar, acho que pra acabar com essa situação a gente tem que ter um conjunto de políticas, tem que ter o exercício de uma cidadania ativa diária, cotidiana, nas universidades, no movimento estudantil, na comunicação social, na sala de aula”, diz Bernadete, que completa afirmando que essa união pode melhorar não só as condições de vida do público negro nas medidas de combate ao coronavírus, como também em outras frente.
“Essa situação só melhora com esse conjunto de coisas para a resposta da pandemia, mas é (também) resposta para as epidemias tanto de violência, de feminicídio, de doenças evitáveis, de controle de doenças crônicas, que incidem nessas mulheres, negras, e que vivem na sua grande parte na periferia da cidade”.
No mapa interativo a seguir, veja alguns dos lugares de apoio às mulheres negras em Recife.
Com relação ao papel do jornalismo, Bernadete afirmou que é importante quebrar o modelo estrutural da comunicação, que, na visão dela, é predominantemente formado por uma perspectiva patriarcal, branca, masculina, e que não atende aos combates das desigualdades e do racismo.
“O papel do jornalismo é ajudar no sentido de uma mensagem político simbólica que faça sentido para vida das pessoas e que dialogue com as pessoas, que consiga, junto com elas, transformar regras em práticas, em modos de fazer no cotidiano de territórios diferentes. Nossa comunicação ainda é muito dominante numa perspectiva patriarcal, branca, ocidental, masculina e a comunicação também é mediada pela política que nos compõe, que nos estrutura, e eu acho que a comunicação tem que desmontar isso. E o jornalismo tem que desmontar essa estrutura racista, preconceituosa e misógina”, finalizou.
“A cor da pele é fator decisivo sobre a vida e a morte“
Eleito o primeiro grupo coletivo de mulheres da história de Pernambuco nas eleições de 2018, o Juntas Codeputadas vem buscando auxiliar o público feminino que está em condições precárias. E uma das formas de ajuda, claro, é combatendo o racismo e as desigualdades presentes no país. Para Robeyoncé Lima, uma das cinco mulheres que formam o coletivo, a cor da pele é um indicativo sobre a (falta de) qualidade daquelas pessoas.
“A cor da pele da pessoa é fator decisivo sobre a vida e a morte dentro do contexto da pandemia. Inclusive a cor da pele é fator decisivo sobre a questão da letalidade policial, do encarceramento em massa, na desigualdade de renda, na violência estética, na mortalidade infantil e no retorno da fome”, disse Robeyoncé, que completa destacando a necessidade de aceitarmos o racismo que existe em nós para, a partir daí, construir um futuro combatendo esses problemas.
“Como é que a gente pode estar discutindo essa questão racial nessa sociedade, como é que a gente pode estar fazendo um planejamento de futuro, o planejamento da na nossa sociedade, e sem aceitar o racismo que existe em nós?”, questionou a deputada estadual.
Durante este período duro de pandemia do novo coronavírus, Pernambuco viveu um dos casos mais dilacerantes do racismo sistemático no Brasil, de acordo com a ONU. O caso é o do menino Miguel, de cinco anos, que morreu ao cair do prédio de onde a sua mãe, Mirtes Souza, trabalhava como empregada doméstica. No momento do acidente, o garoto estava – ou deveria estar – sob os cuidados Sari Corte Real, patroa da mãe de Miguel e primeira dama de Tamandaré.
No entanto, Sari não cuidou de Miguel, deixou ele entrar no elevador sozinho para ir em busca da mãe, o que não aconteceu. De acordo com a perícia, o garoto se perdeu da mãe, foi até o nono andar do prédio, onde ficam as peças do ar-condicionado, escalou a grade de proteção e caiu de uma altura de cerca de 35 metros, que causou sua morte.
Este caso é mais um dos exemplos de como o Brasil é um país racista e com grandes desigualdades. Para Robeyoncé, isso é um ‘projeto de necro-política’ fazendo com que a maioria do casos e das vítimas de coronavírus sejam em indivíduos negros que, infelizmente, seguem sendo expostos à condições precárias dia após dia.
“Infelizmente é um projeto de necro-política que não se importa com a vida dessas pessoas. Também é uma comprovação do quanto a gente tem um Estado racista e que não se importa com a vida e com a saúde dessas pessoas que estão cada vez mais expostas diante dessa pandemia do coronavírus. A maioria das vítimas do coronavírus são pessoas negras que, inclusive, enfrentam dificuldades no acesso à saúde. (Além disso) a maioria das pessoas que estão precisando de leito de UTI em hospitais públicos são pessoas negras e como é que a gente está lidando com essa situação num contexto de crise sanitária como esse?”, questiona Robeyoncé, que completa destacando o tratamento diferente das vítimas do coronavírus.
“Porque é isso, o coronavírus só virou pandemia enquanto estava em aviões, o coronavírus só era pandemia enquanto estava subindo elevadores sociais. Quando começa a descer elevadores de serviço, o coronavírus deixa de ser pandemia, e quando sobe o morro também deixa de ser pandemia, porque aí mesmo o coronavírus é para ficar”, finalizou.
Além dos movimentos sociais, a Secretaria da Mulher de Pernambuco também vem cumprindo o papel em relação às mulheres que têm dificuldades – ainda mais durante essa pandemia. O objetivo da organização é acolher o público feminino, enfrentando os preconceitos e promovendo programas que têm como principal meta a aplicação dessas políticas públicas tão necessárias para o bem estar.
Lucidalva Nascimento, gerente de fortalecimento sociopolítico para as mulheres na Secretaria da Mulher do Estado, explicou como a organização, que atua de forma conjunta com as demais secretarias e organismos de política para as mulheres, vem auxiliando este público durante a pandemia do novo coronavírus. “Nesse sentido atuamos junto aos Comitês das Mulheres Negras, bissexuais e lésbicas, com as mulheres com deficiência, mulheres idosas, as trabalhadoras sexuais, mulheres trans, domésticas e rurais. Realizamos reuniões mensais, ouvindo suas demandas e encaminhando para os setores responsáveis. Realizamos Webconferência e Fóruns virtuais de discussão com todos os segmentos de mulheres sobre temas relacionados às suas pautas mulheres”, afirmou Lucidalva, que completa elencando mais medidas de apoio para este público.
“Apoiamos as mulheres junto a Ouvidoria da Mulher (0800.281.8187), orientando sobre o auxílio emergencial. Realizamos fóruns virtuais com as gestoras municipais de política para as mulheres das 12 Regiões do Estado para tratar exclusivamente sobre o enfrentamento a violência doméstica contra a mulher e a Rede de Proteção”, afirmou.